É interessante como simples fatos do cotidiano nos fazem refletir sobre situações da realidade que precisam ser transformadas, a fim de alcançarmos a tão almejada justiça social.
O fato ocorreu na porta de uma agência bancária de um bairro de classe média da cidade de São Paulo, na qual um senhor aparentando um pouco mais de 70 anos, pedia ajuda aos clientes ou usuários dos serviços, que entravam e saíam da agência. Ele estava trajado com simplicidade, apresentava-se limpo e não tinha aspecto de mendigo. Trazia na mão uma receita médica e pedia auxílio para a compra dos medicamentos.
Uma pessoa mais desconfiada poderá argumentar tratar-se de um artifício para justificar a situação de pedinte. Quantos de nós já não nos deparamos com pessoas nos abordando, por exemplo, nos vagões do metrô com as mais diversas histórias relacionadas com desemprego, doenças, viuvez, etc. Outras poderão pensar tratar-se de uma pessoa que esteja sofrendo conseqüências psicológicas decorrentes do avanço da idade e se manifestando no comportamento.
De qualquer forma, a situação merece ser analisada no campo das questões sociais, uma vez que a velhice muito recentemente vem sendo objeto de atenção e cuidados por parte da sociedade nos países em desenvolvimento.
Norberto Bobbio afirmou: "a velhice se transformou em um grande e pendente problema social, difícil de solucionar, não apenas porque o número de velhos cresceu, mas porque aumentou o número de anos que vivemos como velhos. Mais velhos e mais anos de velhice: multipliquemos os dois números e obteremos a cifra que revela a excepcional gravidade do problema". (1996:25)
Nunca é demais lembrarmos que, atualmente no Brasil, atingimos o número de 13 milhões e meio de pessoas com idade acima de 60 anos.
O caso que relatamos, em particular, revela o verdadeiro descaso com que a velhice vem sendo tratada pelo poder público. A começar pela discriminação contra o aposentado refletida nos baixos valores pagos pela Previdência Social. A quantia de cento e cinqüenta e um reais, percebida como benefício pela grande maioria dos que adquiriram esse direito, impõe uma realidade pela qual o aposentado pode viver com menos dinheiro do que um jovem. Na maioria dos casos, ao se retirar do mercado de trabalho, o indivíduo empobrece, dificultando assim suas condições sócio-econômicas. A Previdência Social precisa passar por sérias e urgentes mudanças, a fim de corrigir distorções que provocam desigualdades e exclusão social.
Os recursos de saúde são insuficientes e mal equipados para atender as necessidades dos idosos como a apontada pelo nosso protagonista. Muito provavelmente, ele teve acesso à uma consulta médica na rede pública de saúde, no entanto, não lhe foi fornecido o medicamento receitado. Sabemos que as doenças crônicas que afetam as pessoas idosas como diabetes ou hipertensão, comuns nessa fase da vida, muito dificilmente serão curadas, mas não levarão o cidadão à morte. Ele poderá viver mais 20 ou 30 anos utilizando-se de consultas, medicamentos, exames e possíveis internações e outros serviços que ajudarão a manter sua autonomia.
O uso das verbas públicas se mostra confuso e mal organizado deixando o idoso desprotegido pelo Sistema Único de Saúde – SUS, e aquele que não possui recursos financeiros, nem pode contar com a ajuda da família, para arcar com um convênio privado desenvolve um forte sentimento de abandono.
Num país que está envelhecendo, o sistema de saúde precisa ser reformulado e mudar seu enfoque e suas prioridades. Sabemos que o atendimento preventivo pode evitar internações e riscos para os idosos, além de ser menos oneroso.
É necessário ainda reverter a imagem da velhice construída socialmente calcada em valores e conceitos estigmatizadores, no qual se evidenciam os aspectos negativos. É preciso que a sociedade, apoiada por políticas sociais que proporcionem a merecida tranqüilidade e segurança para os mais velhos, colabore para transformar a mentalidade de que a velhice é a ante-sala da morte.
Para mudar este quadro a educação exerce um fundamental papel nesse sentido, quando desenvolver uma política educacional que tenha como objetivo levar a pessoa a pensar criticamente, criar e respeitar a natureza humana, promover o desenvolvimento contínuo de suas potencialidades, preparando-a para a vida.
Voltaire, aos 81 anos, citado por Simone de Beauvoir, escreve: "É verdade que estou um pouco surdo, um pouco cego, um pouco deficiente, sendo esse conjunto coroado por três ou quatro deficiências abomináveis, mas nada me tira a esperança".
É provável que o que impulsionou o nosso idoso a utilizar aquela estratégia de sobrevivência tenha sido a esperança e o desejo de continuar vivendo...